
Começa, hoje, o mês de setembro, também conhecido como mês de prevenção ao suicídio. O Setembro Amarelo é uma campanha que engloba todo o país durante o mês inteiro, com o objetivo de trazer à tona a valorização da vida. Mas é no dia 10 de setembro que, oficialmente, celebra-se o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Porém, a campanha do Setembro Amarelo, apesar de maior destaque neste mês, acontece durante todo o ano.
Afinal, esse é um assunto que precisamos conversar. Só no Brasil, são registrados cerca de 12 mil suicídios, por ano, com mais de um milhão em todo o mundo. Em relação a esses casos, 96,8% deles estavam relacionados a transtornos mentais, com a depressão como principal causa, seguida do transtorno bipolar e do abuso de substâncias.
Os dados do site https://www.setembroamarelo.com/ apontam, ainda, que pessoas que tentaram suicídio têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente. Além disso, ter sofrido maus tratos e abuso físico, sexual ou psicológico na infância, apresentar abuso ou dependência de substâncias lícitas ou ilícitas e a falta de apoio social estão associadas ao maior risco de suicídio.
Os números ainda demonstram que 50% a 60% das pessoas que morreram por suicídio nunca se consultaram com um profissional de saúde mental, ao longo da vida. O que reforça a importância desses/as trabalhadores/as. Os dados ainda apontam que os óbitos por suicídio são, aproximadamente, três vezes maiores entre os homens do que entre mulheres. Porém, as mulheres tentam o suicídio três vezes mais que os homens.
Setembro Amarelo
A campanha é realizada, principalmente, pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), e o melhor é que todos e todas podem fazer parte como voluntário da campanha, entrando em contato pelo site www.cvv.org.br ou discando 188.
E, claro, se souber de alguém que precise de ajuda, divulgue os canais acima, tanto o site quanto o telefone. Os serviços do CVV ajudam a salvar milhares de vidas. Fique atento a comentários que demonstrem desespero, desesperança e desamparo. Eles podem ser a manifestação de uma ideação suicida.
Entrevista
E já que o tema do mês é a prevenção ao suicídio, assim como os cuidados com a saúde mental, entrevistamos a psicóloga do Incaper Nivea Dalmaschio Daltoé sobre o assunto. Boa leitura!
Estamos passando por momentos delicados, durante o período da pandemia da Covid-19. Nem todos lidam com naturalidade com mudanças, que podem ser vistas como drásticas por alguns. Há algum tipo de exercício, mental ou físico, que possamos fazer para ajudar a cuidar da nossa saúde mental?
A prática de exercícios físicos é benéfica para a manutenção da nossa saúde mental, existindo vários estudos que associam os exercícios à diminuição dos sintomas depressivos leves, do estresse e da ansiedade, contribuindo também para a melhora nas funções cognitivas, como memória e atenção.
Cada um deve encontrar o tipo de exercício que mais gere satisfação, respeitando seu organismo e limites físicos. Exercícios como leitura e outros que estimulem a concentração, memória e criatividade são válidas, como quebra-cabeça, palavras-cruzadas, exercícios musicais…
Como podemos perceber que um(a) amigo(a) ou parente esteja passando por dificuldades e precisa de ajuda? Pessoas que estão sofrendo com a saúde mental emitem algum “sinal”?
Quando notamos que o outro esteja apresentando mudanças na forma de agir, de se comportar, de falar, bem como alterações de humor. Por ex: quando há aumento da irritabilidade, da agressividade, preferência pelo isolamento e reclusão, comentários frequentes de desesperança e morte, pensamentos negativos, luto persistente… Enfim, são várias mudanças comportamentais possíveis que requerem atenção e cuidado e que sinalizam um desequilíbrio na saúde mental do sujeito. Cada doença mental possui sinais, sintomas e formas de tratamento adequadas.
Até onde podemos ir com a ajuda para quem está sofrendo?
Quem não é da área de saúde mental, mas quer ajudar um familiar ou colega em sofrimento, pode escutar o sujeito de forma aberta e acolhedora, evitando julgamentos. O convívio com pessoas queridas e o estabelecimento de relacionamentos saudáveis são essenciais para a pessoa em sofrimento se sentir menos sozinha e fragilizada.
Além disso, o familiar ou amigo pode orientá-lo a buscar serviços e profissionais especializados e até se oferecer para acompanhá-lo a fim de encorajá-lo, se necessário.
Qual é o momento de buscar ajuda profissional?
O ideal é o quanto antes a pessoa notar algum sintoma, sofrimento, pensamento ou comportamento que não possuía e esteja lhe causando algum desconforto para si próprio ou para quem convive com ela. Podemos citar como exemplo, ter passado por situação de forte estresse e/ou trauma; apresentar comportamentos que envolvem vício ou compulsão (aumento no consumo de álcool, comprar excessivamente sem necessidade, etc); desinteresse em desempenhar atividades que antes gostava de fazer, por falta de ânimo, prazer ou vontade, comprometendo sua rotina; surgimento de dores sem causa física; alteração no padrão de sono e no apetite, dentre outros.
Muitas vezes as pessoas mais próximas, como o cônjuge ou pais, são os primeiros a perceberem que algo anda diferente com aquela pessoa.
Há diferença entre tristeza e depressão? Quais são os “sinais”?
Em linhas gerais, a tristeza é um sentimento considerado normal de sentir, podendo durar horas ou alguns dias e não há comprometimento grave para a rotina da pessoa. Já a depressão é mais duradoura, a pessoa sente a tristeza por mais tempo. Para haver diagnóstico de depressão, a tristeza deve persistir por pelo menos duas semanas. Além desse humor rebaixado, o indivíduo depressivo sente desânimo ou cansaço exacerbado, perda de interesse e de prazer que afetam muito sua vida, baixa autoestimae até ideação suicida nos casos mais graves.
E a ansiedade? Como podemos lidar com ela, durante a pandemia e depois da quarentena?
Muitos sintomas, como a ansiedade, se intensificaram com a pandemia e outros começaram a surgir em decorrência desse cenário de incerteza, de isolamento social, em que há medo de ser infectado pelo coronavírus, ou de ter que vivenciar a doença de um ente querido, além das consequências econômicas geradas.
A ansiedade, em certo grau, é um sentimento esperado e considerado normal à nossa sobrevivência, assim como o medo e o estresse. O problema é quando há um excesso desses sentimentos, quando eles se tornam nocivos à nossa saúde.
Por isso, o importante é aprender a lidar com esses sentimentos e tentar criar estratégias de enfrentamento, de algum modo. Não se deve negligenciar e subestimar esses sintomas, pois quem os nega tende a sofrer as consequências mais tarde, ou seja, não cuidar de sua saúde mental no momento certo pode fazer com que, uma hora ou outra, os sintomas voltem até mesmo com mais intensidade.
O autocuidado é importante e algumas medidas podem ser tomadas. Planejar nossa rotina de trabalho e separá-la da vida pessoal, estabelecendo limites; procurar se alimentar e dormir bem; fazer exercícios físicos; ter pausas para momentos de relaxamento, e procurar ajuda especializada se os sintomas estiverem mais intensificados. Não é vergonha nem sinal de fraqueza buscar ajuda.
Os exercícios de respiração podem ajudar a controlar a ansiedade? Como eles podem ser feitos?
Sim, alguns exercícios podem ser realizados em situações de tensão e ansiedade momentâneas.
Um exemplo de exercício é a respiração alternada pelas narinas: pressione a narina direita com o polegar direito; inspire o ar pela narina esquerda de forma profunda; segure a respiração por uns 5 segundos e depois pressione a narina esquerda para expirar pela direita. Faça o processo ao contrário e repita umas cinco vezes.
Outra técnica simples é a seguinte: coloque uma mão no abdômen e a outra no peito, mantendo os ombros eretos; respire profundamente pelo nariz, levando o ar até o diafragma (abdômen). O foco precisa estar no diafragma e não no peito. Expire pela boca. Repita o processo de maneira lenta de 6 a 10 vezes.
As doenças provocadas pela nossa saúde mental ainda são um tabu, na sociedade?
A saúde pública no país ainda é um aspecto que precisa ser melhorado e ser mais acessível à população. Quando falamos em saúde mental, então, a situação piora, pois é ainda menos priorizada por nossos governantes. Isso dificulta o tratamento das pessoas que possuem algum transtorno mental.
Soma-se a isso, o preconceito que as pessoas, em geral, ainda possuem quanto às doenças mentais. Um país que não cuida adequadamente de quem precisa, não informa e não preza pela saúde mental de seus cidadãos, contribui para que o tema seja um tabu. Isso é ainda mais comum quando nos referimos ao suicídio. Por muito tempo e diante de variados contextos culturais e religiosos, o suicídio foi considerado um grande pecado, e essa herança cultural reflete-se ainda em nossa sociedade. Muitos julgam, outros evitam falar sobre o suicídio, e a imprensa nem sempre noticia esses casos… por tudo isso, ainda é considerado um assunto tabu.
De que forma podemos contribuir para reduzir o preconceito contra quem sofre dessas doenças?
O preconceito vem da falta de conhecimento, precisa-se falar mais sobre saúde mental, sobre formas de se ter uma vida mais saudável e maior oferta e acesso aos serviços especializados.
O preconceito também parte de cada um de nós, do nosso juízo moral inapropriado quanto à situação alheia. É necessário se colocar no lugar do outro, praticando a empatia e evitando o julgamento. Afinal, todos nós estamos suscetíveis a, em algum momento da vida, passar por algum problema de saúde mental. Por isso, a diminuição do preconceito depende da mudança de nossas próprias atitudes e modos de pensar. Por vezes a própria pessoa que está em sofrimento psíquico tem preconceito e acaba negligenciando sua situação, se negando a procurar ajuda profissional e aderir a um tratamento.
Temos muitos preconceitos a superar, como por exemplo, achar que psiquiatra e psicólogo só atendem quem está louco, que depressão é frescura, e que quem tenta se suicidar só quer chamar a atenção.
Quem precisa de ajuda pode procurar socorro com quais profissionais? Há serviços gratuitos?
Os profissionais da saúde mental são principalmente o psicólogo e o médico psiquiatra. Muitas vezes, o paciente que procura uma unidade de saúde, vai ser atendido primeiro por um clínico geral, que vai encaminhá-lo para a equipe especializada. Infelizmente nem todas as unidades de saúde possuem essa equipe de saúde mental.
A maioria das faculdades possui clínicas de psicologia que oferecem atendimento gratuito (ou com valores simbólicos) à população, priorizando as pessoas de baixa renda. Para isso, os interessados devem se cadastrar e aguardar serem chamados para atendimento com alunos que estão concluindo a graduação de psicologia e sob supervisão de um professor.
Alguns psicólogos clínicos também acabam reservando algumas vagas para atendimento gratuito ou com custo reduzido, especialmente durante a pandemia.
Também há o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento gratuito via telefone 188, chat ou e-mail. Os atendimentos são voltados a todas as pessoas que estejam precisando conversar, e possuem foco, sobretudo, na prevenção do suicídio.
Fonte: https://www.setembroamarelo.com/.