
Há décadas, a Extensão Rural realizada por servidores e servidoras do Incaper atende a milhares de famílias agricultoras do Espírito Santo. E há um trabalho, em especial, que acontece desde 2008, no Assentamento Sezínio Fernandes de Jesus. São aproximadamente 180 famílias vivendo nos pouco mais de 2 mil hectares da área assentada, com parte delas sendo atendidas por ações do Escritório de Linhares, a exemplo do desenvolvimento de uma Organização de Controle Social (OCS) e a produção e instalação de biodigestores, além dos cursos e orientações para o uso da técnica de homeopatia na produção.
A partir do contato que tivemos com o agricultor Anderlucio Afostini, conversamos com parte dos agricultores familiares que residem no Assentamento para saber um pouco dessa história, assim como do trabalho desenvolvido por eles na relação da agroecologia. E ainda contamos com a ajuda da agricultora Fátima Ribeiro para ilustrar nossa entrevista com imagens do assentamento. Boa leitura!
Nos falem um pouco sobre a história do assentamento. Como começou?
O nome do assentamento é Assentamento Sezínio Fernandes de Jesus, localizado no município de Linhares, a 33 quilômetros de Linhares. O nome se deve a um sindicalista que lutou pela causa da reforma agrária. Foram assentadas 100 famílias, no ano de 2008, quando aconteceu a desapropriação. Houve uma ocupação em 1997, e que desencadeou um processo que levou à desapropriação.
O assentamento tem uma área de pouco mais de 2 mil hectares, e desse total, boa parte são áreas ambientais, reconhecidas por lei. A área é fracionada por famílias assentadas, e cada família tem uma parcela de aproximadamente 9 hectares para produção, sendo que 2 hectares no sistema cabruca, em trabalho agroflorestal, com a produção cultivada sob a sombra de espécies nativas, em áreas de proteção ambiental.
Foram assentadas 100 famílias titulares, mas há muito mais famílias, porque algumas vieram filhos, irmãos e aumentou esse atendimento. São aproximadamente 180 famílias.
Essas famílias, falando um pouco mais da história do assentamento, que vieram a ocupar as vagas do assentamento se dividiram em três acampamentos, com parte delas vindo de Aracruz, parte de Mantenópolis e parte de Nova Venécia. Há todo um processo de seleção e participação durante o período de assentamento, e que resulta nas famílias que vão ocupar as vagas.
Quanto ao perfil, parte dos assentados eram meeiros, alguns diaristas, parte moravam na roça e se deslocaram para cidade, retornando para a roça e morando na lona
Como é a produção de alimentos entre as famílias assentadas?
Sobre o método de produção que as famílias adotaram… As famílias permaneceram aproximadamente dois anos na sede, para que o Incra pudesse entrar na fazenda e fazer a topografia, medir tudo, para dividir e numerar as áreas para o sorteio entre as famílias, que foi organizado pelos próprios núcleos. Eram 10 núcleos, com o assentamento dividido em 10 áreas. Foram, assim, sorteados de 1 a 10 as áreas de cada núcleo. Ou seja, o sorteio aconteceu por núcleo, sorteando dez lotes em cada, chegando ao total de 100. Foi dessa forma que procedeu o sorteio, com o próprio assentamento organizando a metodologia.
Quanto à produção, no início se plantava feijão, milho, mandioca, abóbora, com produção mais rápida, de ciclo mais curto. Em 2011, quando a gente começou a subir para os lotes definitivos, o projeto Luz para Todos veio e beneficiou as famílias. Passamos a ter energia e a melhorar o desenvolvimento da agricultura. Também veio o projeto de moradia, pelo Incra, e pudemos construir as casas. A partir daí começamos, mesmo, a desenvolver uma agricultura.
O que entrou primeiro foi o café, e as famílias começaram a produzir. Depois veio a banana, porque tinha um peso forte na região. E junto com a banana entrou a pimenta do reino, algumas frutíferas, como a laranja e o limão, e as plantas de subsídio, como feijão, milho e mandioca. Dali o assentamento foi se desenvolvendo. Também tiveram famílias que optaram pelo gado de leite, na produção de queijo, e a venda até para dentro do próprio assentamento.
Quais técnicas agrícolas vocês usam? E como elas são empregadas no dia-a-dia da comunidade?
Hoje, quanto às técnicas que usamos nas propriedades do assentamento, variou muito. No início havia uma discussão mais amplificada. Hoje há grupos que defendem mais a agroecologia, e que com uma discussão envolvendo o Incaper conseguimos buscar apoio para ter acesso a homeopatia, desenvolvendo um conhecimento básico para as famílias e que, atualmente, conseguimos aplicar nas nossas propriedades.
Outras pessoas preferiram se distanciar do tema, ficando próximas de uma agricultura mais convencional, tendo orientação técnica do Incaper e fora dele. E outros preferiram ficar mais estagnados. É um modelo de produção bem misto, com parte no convencional e parte mais agroecológico e menos agressivo.









Como funciona esse sistema entre as famílias que compõem o assentamento? Há uma divisão de tarefas e funções?
O assentamento é formado por núcleos de famílias, e esses núcleos possuem, em sua maioria, dois coordenadores. Quando há necessidade de se reunir para discutir uma demanda da comunidade, esses coordenadores trazem o debate para dentro dos núcleos. Ninguém toma decisão sozinho. É tudo bem democrático.
Quanto à distribuição de tarefas, vou citar um caso sobre uma ponte de madeira, que ligava ao outro lado do assentamento, na vazante da lagoa terra altinha. A prefeitura fez um quebra-galho, na época, e depois a ponte voltou a ficar ruim e perigosa. Passava transporte escolar por ali, e a prefeitura não podia nos ajudar. Então nós fomos atrás, conseguimos a manilha com o proprietário vizinho, de uma represa antiga que tinha estourado, e a gente juntou as famílias e fomos lá fazer a ponte, em mutirão.
A escola que temos no assentamento, que é maravilhosa hoje e passou a receber estudantes da redondeza, foi inicialmente adquirida com muito sofrimento. Não havia nem funcionário para fazer limpeza, na época. Foram os pais e as mães que fizeram a limpeza e resolveram tantos outros problemas da escola, sempre com mutirão.
Além de optarem por um sistema produtivo mais saudável, o que mais procuram? Há o interesse de comercializar esses produtos e por quais motivos?
Quem entrou para o sistema convencional, tem como único objetivo se manter economicamente vendendo sua produção. Quando nos voltamos ao grupo da agroecologia, da homeopatia, há uma preocupação além da produção: buscando reconhecimento não apenas na venda de um produto bom, mas porque ali também há preocupação com as pessoas que estão adquirindo o produto. Isso porque a nossa produção é mais saudável para a gente, os que produzem, e também para quem vai consumir. O interesse nesse modelo de produção seria buscar um maior benefício para todos que fazem parte dessa cadeia, incluindo os que produzem e os que consomem. Se tem saúde no campo, tem saúde na cidade. Essa é a preocupação do grupo que trabalha com a agroecologia.
A gente já tentou ingressar em algumas feiras livres de Linhares, até com apoio do Incaper e do Ifes, mas não tivemos sucesso. Vimos que não era viável e resolvemos parar. Algumas pessoas vendem os produtos para programas municipais ou estaduais, de aquisição para alimentação escolar, e tem um grupo que quer registrar uma OCS, para também encaixar nesses programas municipais e, assim, tornar nosso produto mais acessível. Nossa intenção não é só produzir para vender. A gente vende o que produz, e usa a nossa própria casa para isso.
Como explicam a relevância da Agricultura Familiar para vocês e, claro, para a sociedade? É um processo que também envolve a segurança alimentar, assim como direito à terra e o fortalecimento da reforma agrária?
Apesar de muitos atacarem a Agricultura Familiar, o que planta para sustentar a família, ainda é visto por muitos como uma agricultura que não prospera. Mas isso é um grande engano, porque a Agricultura Familiar é a agricultura que mais gera emprego, é a que mais emprega as famílias e outras pessoas, de outras famílias, e que também garante o sustento no campo.
Lembro-me bem dos debates do MPA nos anos 90, entre 94 e 99, quando apontamos que o êxodo rural seria um pesadelo anos à frente, e foi. Hoje, em todos os lugares, o que ouvimos por aí é a falta de mão de obra no campo. Produtores que não encontram profissionais para trabalhar na colheita, no plantio… Esse é um erro lá de trás, de uma política que não acompanhou e não percebeu que o jovem também precisava de mais oportunidades no campo. Hoje há outros olhares para a Agricultura Familiar, mas isso era para ter acontecido lá atrás.
Em relação à Segurança Alimentar, a Agricultura Familiar consegue gerar alimento não só para a própria família, mas também para uma grande população que está no entorno. A gente vê que as pequenas feiras, feitas por pequenos produtores, conseguem levar muito alimento para a cidade, e alimento bom, de qualidade.
E o direito à terra, para acontecer, precisa de mais política pública. Quantas pessoas, hoje, não têm oportunidades e acabam migrando para a rua? Porque na roça não consegue ficar, porque tem que trabalhar para os outros, porque é explorado, porque não tem perspectiva de progredir. Se tivesse direito à terra, trabalharia para ele. O que ele fizesse, mesmo que fosse pouco, seria dele. Então ele estaria empregando a ele, a família dele e estaria gerando produto para ser consumido para além da família.
Outra questão que abrange a Agricultura Familiar e a Segurança Alimentar é a questão das sementes, da manutenção das variedades que eram plantadas lá no passado, pelos pais, pelos avós, e que ainda vem rolando, meio que tropeçando, mas vem. Porque as grandes empresas querem a detenção dessas variedades, querem criar novas variedades, geneticamente modificadas. É isso: é um grande comércio de sementes. Se você não compra sementes, você não planta. Então a Agricultura Familiar também resguarda, muito, esse direito de ter a semente própria, de não comprar, de fazer a troca com o vizinho, de manter a variedade e de resguardar todo um conhecimento adquirido no passado.