
O que o feminismo e a agricultura familiar têm em comum? Para a extensionista e coordenadora do projeto Mulheres do Cacau, Alessandra Silva, os dois temas estão diretamente conectados, principalmente quando os projetos promovem a redução da desigualdade de gêneros no campo, buscando aumentar a visibilidade e a valorização do trabalho da mulher na agricultura familiar.
Com o Mulheres do Cacau, esses objetivos foram atingidos. “Essas mulheres tomaram posse do projeto. Elas se sentem pertencentes a um grupo, que é o grupo das Mulheres do Cacau. E hoje eu posso dizer que elas estão empoderadas: tomam a iniciativa, buscam as oportunidades, participam de feiras, são homenageadas. E isso faz com que o projeto fique tão lindo”, aponta Alessandra.
Essa autonomia, como reforça a extensionista, parte desde a decisão de desenvolver o projeto a partir de uma metodologia da pedagogia feminista, e que ganha força a partir das respostas que essas mulheres devolvem ao projeto. “Hoje, o grupo Mulheres do Cacau já se tornou um grupo independente, autônomo. Eu não sou mais uma coordenadora, eu apoio essas mulheres através de novos projetos que elas me pedem para fazer. São elas que estão no comando”, pontua Alessandra.
Reconhecimento

A agricultora Aricelda Trevezani Schimit faz parte do grupo, e se vê cada vez mais fortalecida a partir do Mulheres do Cacau. “Esse projeto me ajudou muito, e não apenas com cursos sobre qualidade das amêndoas. Ele impactou a minha vida, a partir da decisão em reunir todas essas mulheres para se qualificarem e aprenderem cada vez mais. No fim, formamos uma grande família”, afirma Aricelda.
Recentemente, a agricultora foi vencedora de um concurso realizado em Linhares, no final do ano passado, e que avaliava a qualidade das amêndoas de cacau. O segundo lugar ficou para outra integrante do grupo, a agricultora Maria Loss. “É um projeto muito importante. Inicialmente, algumas dessas mulheres não tinham ânimo, mas depois que ele foi criado elas se abraçaram e todas estão fortalecidas, umas apoiando as outras. Hoje nos sentimos mais representadas, com autonomia e confiança no nosso trabalho”, frisa Loss.

Etapas
As Mulheres do Cacau já aprenderam sobre o plantio, o processamento e até sobre a classificação das amêndoas. Dessa forma, além de saberem de todas as etapas na produção do cacau, elas também estão aptas a qualificarem a própria amêndoa que produzem, o que as permitem saber identificar o valor final do produto. É um controle total, de cada etapa, e que vai ampliar um pouco mais a partir dos cursos de chocolate que começaram a fazer.
“Tanto conhecimento e qualidade tem trazido visibilidade a essas mulheres, além de independência. Aprovamos, recentemente, dois projetos com recursos financeiros, que jutos passam de R$ 900 mil. Vamos seguir investindo no conhecimento, em intercâmbios, em montagem de unidades demonstrativas, além de tantas outras ações que realizadas com essas mulheres”, reforça Alessandra.
Hoje, o projeto acontece em Linhares, Rio Bananal, Colatina, São Roque do Canaã e Santa Teresa. E a autonomia foi tanta que o Mulheres do Cacau já reúne 67 agricultoras, com a meta de formarem Associações em cada município onde estão suas propriedades, vinculadas a uma Central das Associações das Mulheres do Cacau.
Início
O projeto surgiu após o retorno de Alessandra do seu doutorado, quando ela estudou sobre as relações de gêneros no campo e decidiu trabalhar pela redução da desigualdade junto com as agricultoras. A partir de um diagnóstico realizado no projeto Elas no Campo e na Pesca, ação pensada pela Seag, Alessandra apresentou o Mulheres do Cacau no Banco de Projetos da secretaria e começou a desenvolver ações que, além de aproximar as agricultoras, promovesse formação e qualificação para que essas mulheres tivessem seu trabalho valorizado e reconhecido.

Foram essas mulheres que disseram à Alessandra o desejo em ter acesso às tecnologias de beneficiamento da amêndoa de cacau, com o objetivo de produzir uma amêndoa melhor, para produção de chocolates finos e alcançando uma renda maior. “Sempre incentivei a Alessandra, acreditando na importância do projeto e na necessidade dele. Seguimos avançando a cada etapa, e acredito que ainda teremos nossa fábrica de chocolates”, frisa Loss.
Metas alcançadas
Quando pensou o projeto – que contou com a ajuda de Lucas Calazans, coordenador do Cacau no estado – o planejado era oferecer uma gama de capacitações a essas mulheres, focadas na produção de um cacau de qualidade, com metodologias para que essas mulheres tivessem autonomia e empoderamento, conscientes de seus direitos e alcançando maior independência do poder público.
Então a proposta era para que essas mulheres pudessem se sentir fortalecidas, com autoestima elevada e com autoconfiança. Dessa forma, além das capacitações, as Mulheres do Cacau também passaram a compartilhar desse conhecimento. “Elas se transformaram em palestrantes, em instrutoras do saber que adquiriram, e passaram a ensinar umas às outras, por meio de dias de campo e, até, de lives”, relata Alessandra.
Hoje, o projeto financiado pela Seag encontra-se em fase final, com todas as metas alcançadas, sendo os resultados sociais os mais expressivos. Nos próximos meses, nova fase do projeto será iniciada, com recursos do Banco do Nordeste, com foco na qualificação das mulheres em produção sustentável, no marketing digital e na conquista de mercados especiais.